Renata e eu resolvemos desistir de pintar nosso próprio apartamento pelo simples motivo de que já o havíamos estragado o suficiente em um dia, e resolvemos contratar um pintor. Um cara bem legal, com seu irmão divertido que apareceu para a pintura com uma camisa do Beto Carreiro (ponto alto da minha vida), um pessoal bem bacana.

Eu fui incumbido de mostrar-lhes o apartamento pela primeira vez, pois Renata estava trabalhando. Tudo aconteceu na maior tranquilidade, piadinhas sendo feitas, risos sendo disparados voluntariamente, era quase que uma festa da felicidade (mentira, eu exagerei demais aqui, mas é pra dar um efeito mais forte ao próximo parágrafo).

Eis que chega o dia em que minha noiva se encontraria com o pintor. Após minha conversa preliminar com eles, ficamos de ligar para fechar o negócio e marcar o dia em que a pintura iria se iniciar. Quando chegamos lá para recepcionar os pintores e deixa-los fazer seu trabalho, o clima ainda estava ameno, com piadinhas, brincadeiras, tudo na maior tranquilidade. Aí veio a conversa sobre dinheiro:

– E como você vai querer o pagamento? – Disse Renata, com um ar tranquilo.

– Em dinheiro – Respondeu o pintor e todos nós rimos.

– Não, estou perguntando como faremos para te pagar, se você vai ficar até o final da segunda-feira para receber ou se eu transfiro para sua conta. – O clima ainda estava bom.

– Ah, pode ser ao final do serviço. Quando acabarmos eu te ligo e a gente combina. – Tudo bem até ai, um acordo bom para todo mundo.

– Tá, pode ser assim. – Renata havia concordado com tudo e estávamos na porta, prontos para irmos embora.

– Dinheiro não é problema, é solução. – O pintor queria deixar o clima mais ameno, pois nunca é legal falar sobre dinheiro, dívidas, formas de pagamento. Esse foi seu erro.

– Só é solução pra quem recebe. Pra quem paga é problema. – Retrucou Renata. Não sei de onde isso veio, mas comecei a ficar assustado. Todos riram, mas era um riso nervoso.

– Que nada, o pagamento por esse tipo de serviço vale a pena. – Um bom argumento do pintor, eu achei.

– Valeria a pena se não fosse tão caro. – Disse Renata num tom agressivo, indo contra seu próprio discurso de que estávamos pagando pouco pelo serviço.

– Pode ser muito para quem paga, mas para quem recebe pode acabar sendo pouco. – Novamente achei que o pintor era bem lúcido em seus argumentos. Mas sabia que uma discussão dessa forma com a Renata não acabaria bem.

– GANHAR ESSE DINHEIRO TODO PRA PASSAR TINTA NUMAS PAREDES NÃO É POUCO NÃO MEU FILHO. É ATÉ DEMAIS. – Renata já elevava seu tom de voz para um “quase grito”. Eu estava com medo.

– Engraçado é que tem trouxas que ficam sentados com suas bundas gordas na frente da televisão e não levantam nem pra fazer esse “serviço simples”. – Ele disse fazendo o movimento de aspas com as mãos. Renata já estava furiosa.

– VAI TOMAR NO CU SEU FILHO DA PUTA, EU TRABALHO O DIA INTEIRO! – Gritou Renata, correndo para cima do pintor e metendo um incrível soco em sua cara. O coitado desabou por cima das tintas, que voaram pelo apartamento sujando a todos nós.

Dominada pela raiva, Renata continuou a bater no pintor, dando chutes em sua costela. O irmão dele estava paralisado de terror diante da horrível cena. Eu a agarrei, pedi para que se acalmasse e a arrastei para fora do apartamento. Nós corremos para longe de lá, deixando o pintor no chão e seu irmão em estado de choque.

Nem quero ver o que eles fizeram com o apartamento.

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